Para Ir Além

“Você tem que falar sobre as merdas que está guardando…”Maris, Cura pela Ioga (Netflix)

“Você está magro (a) demais…”

“Você está gordo (a) demais…”

Você já se olhou de verdade no espelho? Bem pra dentro… do seu âmago, do seu interior, da sua alma? Então consegue dizer se ela está “magra” ou “gorda” demais? Quanta superficialidade, quanta palavra jogada fora. Quanta preocupação com a vida do outro e em se sentir melhor ao inferiorizar quem está ao lado. Tudo isso são sintomas de uma sociedade machucada, que se envaidece com sucessos passageiros, com insucessos alheios, com a exclusão do seu semelhante.

Quantos likes merece uma foto? Mas, quantos likes merecem a sua busca por um mundo melhor? Um mundo onde tudo está sendo medido por corações “palpáveis”, mas, o que de fato você consegue tocar? Em meio a tantas ajudas para alcançar mais pessoas nas redes sociais, com grupos, regras pré-estabelecidas, quanta gente ao seu redor você estende a mão? Você se preocupa em ajudar a alcançar mais visibilidade das situações que ofendem familiares, amigos e pessoas do seu convívio diário? Você se preocupa em estar presente nos momentos mais importantes das pessoas que diz amar? Você se preocupa com gestos simples que simbolizam muito para o outro?

Será que está sendo esquecido o sentido de “se importar” em meio a tantas mudanças comportamentais da sociedade? Se o mundo busca mais difusão de conhecimento, igualdade, liberdade de expressão e visibilidade porque estamos cada vez mais “desconhecidos” uns dos outros? Eu curto, comento as suas fotos, sigo, mas não sei o que você gosta de conversar, não sei muitas vezes nada sobre você… Incontáveis usuários online em diversas redes sociais que são utilizadas, ferramentas de marketing online, sites, blogs, mas o que importa pra mim? Será que a mente e o cérebro conseguem fazer facilmente essa distinção em meio a tantas informações colaborando para a desatenção diária?

Seria um momento de colapso? Onde pessoas estão buscando cada vez mais os seus propósitos de vida, mas será que estariam encontrando-os? Será que em meio à busca estamos nos perdendo em tendências sociais que estão contagiando o indivíduo de maneira a impedir progressos? Será que a liberdade não está se tornando limitada? Será que a tolerância não está intolerante? Será que a amizade não está sendo medida em conexões promovidas pelo espaço vazio e não mais pelo contato físico? Será que está tudo prático demais? E profundo de menos?

Com essas perguntas inicio uma reflexão sobre o que o mundo está vivendo.

Era uma vez uma cidade pequena, do interior, com cerca de 120 mil habitantes, onde uma menina costumava brincar na rua, cair de bicicleta, dar pontos na cabeça após uma brincadeira que deu errado de pique-esconde, fazer guerra de minhoca na lama, jogar futebol só com meninos, brincar de Barbie, brincar com o cachorro e descobrir um ser espetacular, com um amor tão puro e verdadeiro, subir em cima das costas do pai e fazer milhares de perguntas sobre o mundo, sem saber que descobriria coisas incríveis e outras nem tanto assim… Que quando criança acreditava que o mundo adulto manteria as suas fantasias e devaneios, mas que a realidade é que se vive com decepções e em busca de evolução constante.

Era uma vez uma época em que ligávamos pelo telefone fixo para os amigos e além de ficar horas na linha jogando conversa fora, ao final do mês também vinha a conta e o castigo sem ligar pra ninguém nas próximas semanas… “O que tanto vocês têm para falar? Já ficam o dia inteiro juntos (as) na escola e quando chega em casa ainda tem coisa pra conversar? Não pode falar amanhã?”

Quem nunca se deparou com uma situação dessas na fase pré-adolescente ou adolescente? Onde para selar uma amizade verdadeira era necessário dar as mãos, conversar pelo telefone, dormir na casa da amiga ou do amigo, assistir seriados juntos e sonhar sobre o que cada um seria no futuro.

Era uma vez os almoços de domingo na casa da avó, com a família assistindo clipes de hits antigos dançando na frente da TV, comendo aquela refeição preparada com tanto amor, sabendo que era segunda-feira o próximo dia, mas querendo que ela chegasse logo para ver o paquera do colégio, voltar à rotina com os amigos, rir, passar bilhetes durante as aulas, escrever cartinhas falando o quanto amava a sua família e amigos, matar a aula na padaria comendo um ótimo pão francês com manteiga porque era “cool” fazer isso…

Era uma vez o primeiro beijo, o primeiro amor, a primeira decepção, a primeira briga, os primeiros medos do que o mundo poderia reservar… A primeira média perdida, a primeira recuperação na escola, o primeiro aprendizado, o primeiro desespero e os “primeiros” não pararam por aí… Cresceram, e com eles vieram a maturidade, as experiências, os erros, os acertos e as descobertas constantes…

Era A vez agora… A vez de crescer, a vez de encarar a vida sem a ligação diária para falar sobre o paquera da vez, sobre as mensagens trocadas, sobre os suspiros adolescentes, sobre os seriados, sobre a “sueca” do fim de semana. Sem o almoço todo domingo na casa da avó, sem o colo diário dos pais, sem a partida de tênis ao final da tarde nas quintas-feiras, sem as provas de sábado, sem o programa de fim de semana na casa de algum amigo.

Ao voltar ao passado as emoções são recuperadas, mas entendemos muitos porquês do presente… Por que tenho medo? Por que não consigo aceitar essa situação? Por que estou com algum bloqueio? Por que sinto saudade? Por que gostaria de fazer diferente do que um dia experimentei ou vi? Por quê?

Na vida é necessário aceitar algumas verdades que nunca mudarão… Ficaremos felizes, tristes, empolgados, com raiva, desânimo, vontade, força, fraqueza, paz, inquietos, reservados, comunicativos, introspectivos, extrovertidos e simplesmente pelo fato de SER HUMANO. Um ser imperfeito, que muitas vezes se priva de entender e de aceitar o outro e de fazer o bem…

Por muito tempo sofri e talvez ainda sofra pelo fato do mundo ser um lugar injusto, cruel e muitas vezes inconsequente. Só que quando olho para mim enquanto humana vejo que às vezes posso ter sido injusta e/ou inconsequente também, pois o motivo principal de estar presente nesse espaço e contexto é para buscar a evolução espiritual da mente, corpo e alma, mas SEM causar o mal a quem está ao meu lado.

Quantas vezes já errei colocando o meu corpo em situações que não o valorizei, seja com o alimento errado e que não trazia benefícios nenhum ou deixando-o parado demais ou esforçando-o além da conta? E tudo isso para quê? Hoje me faço essa pergunta e não encontro uma boa resposta que justifique essas ações, mas me trouxe uma importante reflexão: Aprendizado e crescimento. Hoje, ao olhar para o que como, para o que pratico, para com o que trabalho minha mente, e ao final, para o espelho, vejo uma evolução por entender que o meu corpo é o reflexo da mente e a mente é o reflexo do meu corpo.

Como me sentir bem internamente se “maltrato” as ações externas do meu dia a dia, tais como o que escolho no supermercado, no café da manhã, no almoço e jantar, bem como trato o meu semelhante? O motorista do ônibus, do uber, o porteiro, a diarista, o atendente, o vendedor, a família ou quem está ao lado? Não existe saúde sem essas práticas de modo positivo. Não é à toa que tantos indivíduos encontram a paz interior quando buscam a conexão com o que há lá dentro do nosso íntimo, aquilo que está muitas vezes adormecido porque a vida adulta não nos permite lembrar da criança que um dia já existiu… E ainda existe dentro de você!

Era uma vez uma criança… Uma criança sonhadora que queria ser astronauta, cantora, veterinária, médica, atriz, publicitária, artista e tantas outras coisas… Mas, na realidade ela só queria ser ELA… Sem o julgamento do outro, sem a angústia do que o mundo iria pensar se ela resolvesse “falar as merdas que está guardando…”

E aí, um belo dia ela se deu conta que essa criança não precisa sumir em meio ao mundo adulto, pois é isso que o planeta precisa… Desse amor puro, genuíno e sincero que só uma criança tem… É chegada a hora de um Resgate interior!